quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Ela

Ainda me lembro do dia em que ela chegou lá em casa. Tão pequenininha! Foi uma festa. Botamos ela num quartinho dos fundos. Nosso filho – naquele tempo só tínhamos o mais velho – ficou maravilhado com ela. Era um custo tirá-lo da frente dela pra ir dormir.
Combinamos que ele só poderia ir para o quarto dos fundos depois de fazer todas as lições.
- Certo, certo.
- Eu não ligava muito para ela. Só para ver futebol, ou política. Naquele tempo, tinha política. Minha mulher também não via muito. Um programa humorístico, de vez em quando. Noites Cariocas... Lembra de Noites Cariocas?
- Lembro. Vagamente. O senhor vai querer mais alguma coisa?
- Me serve mais um destes. Depois decidimos que ela podia ficar na copa. Aí ela já estava mais crescidinha. Jantávamos com ela ligada, porque tinha um programa que o garoto não queria perder. Capitão Qualquer Coisa. A empregada também gostava de dar uma espiada. José Roberto Kelly. Não tinha um José Roberto Kelly?
- Não me lembro bem. O senhor não leva a mal, mas não posso servir mais nada depois deste. Vamos fechar.
- Minha mulher nem sonhava em botar ela na sala. Arruinaria toda a decoração. Nessa época já tinha nascido o nosso segundo filho e ele só ficava quieto, para comer, com ela ligada. Quer dizer, aos poucos ela foi afetando os hábitos da casa. E então surgiu um personagem novo nas nossas vidas que iria mudar tudo. Sabe quem foi?
- Quem?
- O Sheik de Agadir. Eu se quisesse, poderia processar o Sheik de Agadir. Ele arruinou o meu lar.
- Certo. Vai querer a conta?
- Minha mulher se apaixonou pelo Sheik de Agadir. Por causa dele, decidimos que ela poderia ir para a sala de visitas. Desde que ficasse num canto, e só aparecesse quando estivesse ligada. Nós tínhamos uma vida social intensa. Sempre iam visitas lá em casa. Também saíamos muito. Cinema, teatro, jantar fora. Eu continuava só vendo futebol e notícia. Mas minha mulher estava sucumbindo. Depois do Sheik de Agadir, não queria perder nenhuma novela.
- Certo. Aqui está a sua conta. Infelizmente, temos que fechar o bar.
- Eu não quero a conta. Quero outra bebida. Só mais uma.
- Está bem... Só mais uma.
- Nosso filho menor, o que nasceu depois do Sheik de Agadir, não saía da frente dela. Foi praticamente criado por ela. É mais apegado a ela do que à própria mãe. Quando a mãe briga com ele, ele corre para perto dela para se proteger. Mas onde é que eu estava? Nas novelas. Minha mulher sucumbiu às novelas. Não queria mais sair de casa. Quando chegava visita, ela fazia cara feia. E as crianças, claro, só faltavam bater em visita que chegasse em horário nobre. Ninguém mais conversava dentro de casa. Todo mundo de olho grudado nela. E então aconteceu outra coisa fatal. Se arrependimento matasse...
- Termine sua bebida, por favor. Temos que fechar.
- Foi a Copa do Mundo. A de 74. Decidi que para as transmissões da Copa do Mundo ela deveria ser maior, bem maior. E colorida. Foi a minha ruína. Perdemos a Copa, mas ela continua lá, no meio da sala. Gigantesca. É o móvel mais importante da casa. Minha mulher mudou a decoração da sala para combinar com ela. Antigamente ela ficava na copa para acompanhar o jantar. Agora todos jantam na sala para acompanhá-la.
- Aqui está a conta.
- E, então, aconteceu o pior. Foi ontem. Era hora do Dancin’ Days e bateram na porta. Visitas. Ninguém se mexeu. Falei para a empregada ir abrir a porta, mas ela fez “Shhh!” Sem tirar os olhos da novela. Mandeis os filhos, um por um, abrirem a porta, mas eles nem me responderam. Comecei a me levantar. E então todos pularam em cima de mim. Sentaram no meu peito. Quando comecei a protestar, abafaram o meu rosto com a almofada cor de tijolo que minha mulher comprou para combinar com a maquilagem da Júlia. Só na hora do comercial, consegui recuperar o ar de aí sentenciei, apontando para ela ali, impávida, no meio da sala: “Ou ela, ou eu!”. O silêncio foi terrível.
- Está bem. Mas agora vá para casa que precisamos fechar. Já está quase clareando o dia...
- Mais tarde, depois da Sessão Coruja, quando todos estavam dormindo, entrei na sala, pé ante pé. Com a chave de parafuso na mãe. Meu plano era atacá-la por trás, abri-la e retirar uma válvula qualquer. Não iria adiantar muita coisa, eu sei. Eles chamariam um técnico às pressas. Mas era um gesto simbólico. Ela precisava saber quem é que mandava dentro de casa. Precisava saber que alguém não se entregava completamente a ela, que alguém resistia. E então, quando me preparava para soltar o primeiro parafuso, ouvi sua voz. “Se tocar em mim, você morre”. Assim. Com toda clareza. “Se tocar em mim, você morre”. Uma voz feminina, mas autoritária, dura. Tremi. Ela podia estar blefando, mas podia não estar. Agi depressa. Dei um chute no fio, desligando-a da tomada e pulei para longe antes que ela revidasse. Durante alguns minutos, nada aconteceu. Então ela falou outra vez. “Se não me ligar outra vez em um minuto, você vai se arrepender”. Eu não tinha alternativa. Conhecia o seu poder. Ela chegara lá em casa pequenininha e aos poucos foi crescendo e tomando conta. Passiva, humilde, obediente. E vencera. Agora chegara a hora da conquista definitiva. Eu era o único empecilho à sua dominação completa. Só esperava um pretexto para me eliminar com um raio catódico. Ainda tentei parlamentar. Pedi que ela poupasse minha família. Perguntei o que ela queria, afinal. Implorei. Nada. Só o que ela disse foi: “Você tem 30 segundos”.
- Muito bem. Mas preciso fechar. Vá para casa.
- Não posso.
- Por quê?
- Ela me proibiu de voltar lá.



(Luís Fernando Veríssimo - Extraído do livro O Nariz e Outras Crônicas)

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